Domingo, 12 de Agosto de 2007

Entre kms e Milhas

A viagem era longa; aí para uns 3000kms, não contando com a imperceptível travessia do frio Báltico que, a partir do porto de Kiel, na Alemanha, o enorme SteanLine iniciava, até acostar no cais escandinavo de Góteborg.

O gigantesco e sumptuoso ferry, devorava a tranquilidade daquelas águas em apenas doze horas; zarpava às 18h e atracava às 8h. E de certeza, que a pachorra das águas nunca o obrigou a ter de se justificar por algum atrazo.

Era arrepiante! ver como aquela enorme bocarra escancarada, abocanhava, engolia e digeria sem espasmos estomacais, infindavéis filas de camions «TIR»,autocarros,motociclos e claro! muita e muita gente e os repartia por três ou quatro andares acima do nível d´água. Era um colosso! Não admira, que perante tamanha e descomunal demonstração de imponência, a minha mulher se tivesse sentido agoniada... era um sentimento que ela nunca soube descrever mas, que a sua fisionomia e conduta, expressaram claramente!... e como eu a compreendia!...Tal visão, reduzia qualquer humanóide a um insignificante estado de pequenez.

Era, para mim, mais uma de muitas viagens, que  sempre começavam na garagem TN e me levavam por essas estradas da europa e, quando elas não chegavam,-como era o caso- o mar não era, nem podia ser fronteira, enquanto não chegasse a Oslo que, não sendo nesta viagem o único destino, era o último.

A Marge também ia nessa viagem e divertiu-se, dentro das limitações; só que para uma criança não há limites, não há fronteiras e muito poucas, ou nenhumas imposições que as impeçam de inventar, a partir do nada,brincadeiras ou divagações inesgotavéis, a não ser, quando uma voz as tráz de volta:«Pára quieta!... Não faças isso!...Jezus! que criança!»

- Quem somos nós, pais! para nos insurgir-mos contra o estado de espírito permanente que alheia das crianças a rigidez da etiqueta que,elas desconhecem e pela qual nunca irão nutrir simpatia. E de repente lá estava eu a boiar nas minhas imagens dessas indiferenças, desses despreconceitos,em que esses chamamentos eram o nosso desespero, porventura mais do que o dos progenitores! Seriedade, responsabilidade,preocupação! Tudo isto deixar ao encargo de adulto! A criança deve sentir que o mundo só poderá ser maravilhoso caso contrário não ousassem pôrem-nos nele!

A minha cave era inimiga do tempo. A frescura expelida do granito abrigava-nos dos escaldantes verões e, nos rigores dos mais inclementes invernos, protegia-nos com o seu bafo a estábulo. A minha cave era o meu santuário. Aí eu me perdia pelas horas enquanto que a restante maralha, se sujeitava ao céu, como teto, para conseguir os mesmos objectivos. Ora fizesse frio, ora chovesse; a água que escorria pelas fendas do rochoso granito, por vezes inundando toda a cave, quando a chuva brotava incansável e ameaçadora, eu brincava a valer.

Lá fora, os miúdos deleitavan-se com as enchurradas; faziam poças e chapinhavam nelas descalços,calças arregaçadas, molhados, indiferentes aos malefícios da chuva e enquanto possível, aos chamamentos das mães, mais ameaçadores do que aflitos.   Desviavam um pequeno curso de água para logo um pouco mais abaixo a reteram com a construção de pequenos diques ou barragens; feitas a princípio com pedregulhos e depois  revestidas a lama rapada do caminho que, na maioria das vezes à falta de sacholas tinham as mãos como substitutas.Depois, vinham as encanaçôes naturais que, mais não eram que tentáculos de abóboras surripadas nos lameiros do Neves e do Manel da Fervença...É claro que preferia as brincadeiras com a rapaziada; juntos fazia-mos loucuras! Gozavo-mos a valer ,sem muitas vezes, ou mesmo nunca nos lembrar-mos que estavamos sob perigo mas, o simples prazer da chuva, da água, das pedras,da lama, dos amigos, da maior barragem e da sua resistência suplantava-se, subrepunha-se ao castigo merecido!-

 

 Essa voz é a da mãe, que não consegue safar da mente o espectro daquele monstro; contudo, gostou de tirar umas « coroas suecas» das máquinas que proliferavam pelos longos e alcatifados corredores do ferry.

O casino, ao qual se chegava vencendo alguns lanços de escadas, morava acima dos camarotes e, após um jantar olhado de soslaio e com muito desdém pela minha mulher, deambulamos por entre as coloridas e barulhentas maquinetas à espera de uma vaga, de uma desistência que, nunca aconteceria, enquanto se estivesse a ganhar senão quando o altifalante fizesse diluir através dos burburinhos,sussuros ou ruídos o aviso de ...«closed»! em vários idiomas. Mas, alguém que nunca esteve numa dessas situações- pelo menos na primeira- desistiu e nós afeiçoamo-nos a ela por mais de uma hora que voou! Até a pequena Marge,  gostou de puxar o manípulo- tendo para isso de se por em bicos de pés- e quando as «coroas» tilintavam pelo escorrega de metal,até se espraiarem com espalhafato na aparadeira; com que alegria ela as  amarfanhava!...

Não! Não saímos abastados nem na penúria desta brincadeira mas, sei que durante ela , embora sabendo que estava lá, a Linda se olvidou da incomensurável massa de àgua que,  amparava aquele monstro e o seu desejo de nunca ter estado ali.

No último piso e,- não faltava nada a este barco- um amplo e arredondado salão, oferecia aos clientes uma pista de dança, que recebia  d´um agrupamento de jovens ibéricos deliciosas rumbas, quentes passos dobles e vibrantes flamengos e onde, entre alguns que se divertiam dançando, um jovem abraçado a um mulher que já o havia sido à muitos mais anos se equilibravam num ébrio e incomprensível desiquílibrio . À volta da pista, bem alapados em sofás forrados a veludo escarlate,com a loira cerveja  e os ambares whísky´s de malte a regarem as goelas, os escandinavos vingavam-se das restrições.

Eram compridos e estreitos os corredores que nos levavam até às cabines, cujas portas nos facilitavam o acesso através de pequenas cartas magnéticas, fornecidas após a aquisição dos ingressos para a travessia.

A nossa cabine tinha dois beliches e eu por razões óbvias optei pelo de cima. Havia também um espaçoso duche e o poder de sucção que limpava a sanita era assustador no seu ruído. Mas, para infortúnio de alguém, no meio de tudo isto, no camarote, lá estava ela, pequena e redonda- a escotilha- com vista imaginem só... para o manto do mar e para o nocturno lençol de estrelas esburacado.

«Fecha essa cortina!» apressou-se minha mulher em pedir. E depois, deitou-se, para uma noite em que não iria dormir.

Ah! Se ela se tivesse aventurado a atravessar o Canal da Mancha! Se daí com vida saísse que pouca ela seria. Aí sim! O mar metia medo! Brincava com o ferry como se ele não fosse mais que um simples nada. Aí, quem não conhecesse a  desagradável sensação do enjoo e do vómito, iria ter, mais que garantida, a sua estreia.

O Báltico, era o arrulhar dum enamorado casal de pombos. O Atlantico da Mancha era o riso aterrador esgrimido pelas bocas de milhares de hienas espumando raiva.

Da primeira travessia, lembro o  veterano das mesmas.O velho Pepe!  «Camionero dos (cacharros) amarillos de Trans Doman!» Tá ainda fresca! Bem gravada na minha cansada memória a dissecação de impropérios que o velho de Doman exalava à mistura com a fumaça expelida através duma dentadura encardida; quase da cor dos «negros cigarrilhos» que aferrados, lhe passeavam pelos lábios de canto a canto da ressequida boca,  quase «pareciendo» parte indissuciável da mesma; um cigarro estava sempre à espera que o outro morresse, se extingui-se, para que o ritual se iniciasse! O fumo do cigarrilho, a carretera e o mar curtiram aquela vida de tão à volta dela andarem que, se lhe perguntasse a idade e ele respondesse:«setienta» eu saberia não ser verdade embora ,a evidência indicasse que, os anos naquele homem não respeitaram uma ordem cronológica e envelheceram-no precocemente.

«Hijo de puta madre!» e expelindo mais uma azulada fumaça continuava a resmungar:«Mal empeçamos e já estás bailando!»Mas, dizia isto ,tal qual como expelia fumaça azulada para os mais próximos e para o infinito- com a maior calma do mundo- e isso, a mim, debutante destas travessias, acalmou-me um pouco embora o «cabron del mar» levanta-se a embarcação como se fora uma pena e a deixasse cair desamparada com um ensurdecedor e arrepiante estrondo na fúria desgovernada daquelas águas.

A Ana, nunca conseguiu arranjar tempo para o medo! para ser sincero, nem sei se alguma criança se apercebe da sua existencia!...talvez medo da noite! do quarto escuro, ou do longo corredor sem fim, onde, a cada passo dado, a mente poderá desenhar fantasmas decorados em histórias noturnas que, as obrigam a correr para onde o  dia e claridade oferecem mais segurança e daí, o  não abdicarem da luz enquanto dormem, não vá o acordar antecipar-se ao amanhecer e os fantasmas ainda não terem tido tempo de se retirarem. É normal que o medo das crianças seja o escuro; pelo menos o mais inegável!...Isso sim!...

No refúgio do pequeno camarote, por certo, de almofada a esconder-lhe a cara, o mar e o ronronar sempre presente que subia pela casa das máquinas, fizeram desta noite, nem por sombras,aquela das mil e uma mas, sim, um pesadelo que para a minha mulher mal havia começado...iria durar uma semana.

 

 ...conti nua  

 

  

 

 

 

driverspanishjezus

publicado por kumyxao às 19:11
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1 comentário:
De Anónimo a 10 de Fevereiro de 2008 às 20:13
Um óptimo excerto de quem tem que fazer milhares de quilómetros para ganhar vida, e em que a natureza tem vezes que nos ajuda e outras que nos pune com a sua força incomensurável.
Continua, nunca te canses de escrever.
Um abraço Mário Almeida

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