Sábado, 12 de Maio de 2007

O velho de Lipomo

Nem sei se o velho, de olhar fitando a vida destruída , balbuciava ou esgrimia. Nem sei bem! O velho memorizara aquela cólera. E que cólera!

«Tedesco , porco cane ! Tedesco , porco cane !»* Enquanto lentamente se  preparava para abandonar aquele bocadinho de tarde em Lipomo , onde o Agosto, por lados e motivos opostos, nos havia encaminhado para aquele pequeno parque, onde sombra e frescura jaziam sob a frondosidade de algumas árvores.

Estou em Lipomo .Já sabem que é Agosto mas, precisam saber que este verão, que abrange Como, é bem capaz de esquentar as águas do seu lago, passar a fronteira de Chiasso a poucos kms de distância e sobrevoando os Alpes suíços amornar o imenso mar que é o lago Evian ou Leman ; invejo este calor, que faz esta travessia sem se incomodar com postos fronteiriços, sem ter de sufocar nos túneis de S.Bernardino,S.Gotardo,Mont Blanc...mas, sim, esquiando pelas suas alvas cristas de neves eternas.O sol, nunca há-de buscar toupeiras.

Embora aqui chegasse ontem, dia 14 de Agosto de 1998; apenas hoje, às 7h30 começaram a carregar o camião com rolos de tecido mas, uma hora passada a tarefa era interrompida devido à falta de mercadoria.

Não com muito agrado, aproveitei esta paragem para adquirir vitualhas; algumas para a refeição que se avizinhava e algo para aprovisionar na despensa.Por  vinte «deutsh marks»* recebi 19.500 liras- como vinte se transformam em quase vinte mil!- milagre da multiplicação...mas, roubo na comparação. Nas duas sacas de plástico, que me faziam distender os bícepedes e ensopar o corpo de lava escaldante, trazia: dois kilos de bananas, um de maçãs, um pepino, meio kilo de tomates, pão e uma «birra»*. Sobraram 6000 liras.

«Nel pomeriggio»,* entediado pela monotonia da espera, desafiei o calor, que às três da tarde, ainda não se afastara demasiado do seu zénite, e dei início a mais uma das minhas caminhadas. Neste desenferrujar do esqueleto, conheci um personagem que me fez sentir pena não ter nascido escritor. O núcleo da angústia e indescrítivel sofrimento fêz com que este homem se debatesse no limiar da loucura. Esteve num campo de concentração de Hitler.

O instinto do meu deambular, levou-me pelas ruas estreitas e sufucantes das imediações,  até um pequeno e verde parque onde, apenas quatro jovens tagarelavam, sentados em um dos bancos, protegidos pela sombra das árvores ali existentes.

Escolhi um banco com árvore, sentei-me,  descalcei as alpercatas e estirei as pernas - estava mesmo calor! «Porca madona!»

O exíguo espaço, vedado com sebe de arbustros verdes até um metro de alto, tinha duas cancelas de ferro, já meio oxidadas. Havia tambem um baloiço, dois ou três escorregas e o chão estava alastrado de ervas. Estava-se bem ali.

De pensamentos a países de distância e olhar prospectando as imediaçôes, segui a retirada de um dos« ragazzi»*, que, montando uma bicicleta se dirigiu para a saída do parque, no preciso momento, em que um senhor alto, seco, aparentando uma respeitável idade, entrava no mesmo. O «ragazzo» parou, e sem desmontar da bicicleta, estendeu  a mão ao idoso mas, tudo isto me pareceu mais uma encenação que um gesto de respeito , nunca um cumprimento; mas, o ancião, parecendo ignorar o gesto, ou provocação-nunca o saberei- limitou-se, num trejeito de pescoço e esgar de voz  a desafinar numa canção enquanto que o mancebo, na frente dele, de braços esticados, gesticulava emitando um maestro, mas sem pausito a fazer de batuta. Os outros compinchas, sem participar, observavam divertidos: enquanto que eu, nem conhecedor da situação, nem dos intervinientes, me limitava a estranhar o insólito procedimento; pois, mais normal me parecia que um cumprimento assim não fosse.

Ultrapassado este prefácio, o velho, olhou na minha direção, balbuciou algo que não entendi, e embora exitante, acedeu ao meu gesto para que se sentasse junto a mim.

«Io!» E bati com o indicador direito no peito,«  autista del portogallo!»* e vendo que ele me olhava sem denotar grande atenção, quase desinteressado, mumificado numa extensa ausensia- insisti«mi chiamo Alberto e aspetto  il carico!»*...

Olhava-me com um olhar confuso, o olhar de quem já há muito tempo perdera o interesse pelas frágeis maravilhas da vida.

Catarrou, tentando limpar uma voz, que saíu rasurada, inentendível mesmo para um italiano, quanto mais para mim, que apenas gatinhava e mais não dum que um «buon giorno signor»*,«grazie e prego»*  conseguia articular.

«Io non riccordo!...»*- conseguiu dizer.

Seria amnésia? Pensei!...

«Mia moglie é morta ...»*- aí percebi o esforço que por certo lhe punha em carne viva a garganta e o coração- «tedesco porco cane !»- esforcei-me para captar o que a voz , agora, mais embargada, como que lhe amnizando o estado de amnésia, trazendo-o de volta a uma terrível realidade... queria desabafar.- «Morta in un campo de concentramento di Hitler!»*Estrebuchou.

Depois, este velho!... Seco de tudo! «anche»* de lágrimas; porque se as tivesse, por certo, choraria todas as horas da sua vida, fez uma longa pausa: daquelas pausas em que dá para perceber que toda noção de pressas fora substituída por uma sensação de que tudo se tornara demasiado infinito e todo o tempo «del mondo» enquanto a voz se não lhe extinguisse carregaria com o peso daquela frase...daquele impropério!...«tedesco! porco cane !.. tedesco porco cane !...» levantou-se, sem alento para a penosa caminhada, ao mesmo tempo que me estendia a mão trémula e mirrada; preparando-se  para me deixar  e também abondonar o jardim e aquela tarde escaldante em Lipomo .

Que destino teria para seguir?...aquele velho a quem o sofrimento gerou tanto ódio... tanto, que por muitas geraçôes que ainda pudesse viver, - tedesco, para ele, seria sempre e sempre, porco cane -«tedesco porco cane!» seria sempre a companhia 

com quem manteria solilóquios de incontáveis porquêêês...

Dá pena ver  sofrimento que pode caber no pequeno espaço dum homem, duma alma e poder ser tanto!...

*alemão, porco cão

*moeda alemã-marco

*cerveja

* à tarde

* rapazes

*camionista de Portugal

*chamo-me Alberto e espero por carga

*bom dia sr.

*obrigado e por favor

*a minha mulher morreu

*morta num campo de concentração de Hitler

*também

                

driverspanishjezus

 

publicado por kumyxao às 19:25
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Bodas de prata

. ...

. 10 de Julho de 1956

. ...

. Sozinho em Casa

. sonhos

. Era

. ...

. O dia daquela noite

. Public...

.arquivos

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds